Mrs. Dalloway

Mrs. Dalloway_OqueequeolivrotemUm dia na vida de Clarissa Dalloway é o que devemos acompanhar em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Um dos grandes clássicos da literatura inglesa e também um livro desafiador sob o ponto de vista do leitor. Um história simples, mas cuja narrativa a transforma em algo tão complexo como a própria condição humana.

Casada com um político britânico conservador da década de 1920, Clarissa está envolvida com os preparativos para a festa que oferecerá à noite quando lembranças, amores e amigos do passado batem à sua porta fazendo com que seus pensamentos vaguem ainda mais para um ponto distante de sua juventude, a levando a refletir sobre o tempo, suas escolhas e sua vida.

O saudosismo impera em diversos momentos, alternando presente e passado, mas também com breves toque de futuro, pois a alternância também se dá sobre a narrativa e os personagens. Não há um único narrador ao longo de toda a trama, as consciências dos sujeitos aparecem e desaparecem em um atravessar de rua, ao abrir uma porta ou ao ouvir o som de um carro.

Vemos Peter Walsh rememorar seus sentimentos por Clarissa, criticá-la mentalmente, questionar-se sobre seu novo amor e observar o frescor da juventude. Temos uma pequena amostra da mente organizada de Richard Dalloway, assim como somos assombrados pela consciência traumatiza pela Guerra de Septimus Smith, cujo pensamento suicida aterroriza Lucrezia, sua esposa, da qual partilhamos as dúvidas e o desespero. Outros personagens também tem suas subjetividades descortinadas sob nosso olhar, sem aviso ou pausa, e é isso que torna a obra brilhante e perturbadora.

Conhecendo a história da autora torna-se impossível não reconhecer Virginia Woolf aqui e ali entre pensamentos e reflexões de seus personagens.

VirginiaWoolf

Por fim, um aviso, não é um livro para se começar a ler Virginia Woolf, pelo menos essa é a minha opinião. Como dito, Mrs. Dalloway não segue uma narrativa linear tradicional, que é com o que lidamos no dia a dia. Só consegui lê-lo até o fim na segunda tentativa, depois de parar e pesquisar uma pouco sobre a autora e seu método de escrita, o fluxo de consciência, que faz com que vejamos os personagens de dentro para fora.

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de janeiro.

Tema: Escrito por uma mulher

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Sangue Azul

Sangue AzulAchar-se comum é algo rotineiro na juventude. Na verdade, é mais um medo do que uma constatação. E com Olívia Spencer, a personagem principal de Sangue Azul, não era diferente. Fazer amigos havia se tornado um bloqueio, o mundo dos livros era mais sua praia e a literatura uma verdadeira fuga ( nem preciso dizer que me identifiquei nesse ponto né?).

Mas, para o bem e para o mal, tudo muda. O imaginário se torna realidade, e o impossível passa a fazer parte da rotina quando Olívia conhece Nicolas, um ruivo bonitão cujo o tema “livros” gerou uma rápida identificação, mas enquanto ela fazia mais o estilo Jane Austen, ele gostava mesmo era de uma boa história policial ao estilo Conan Doyle ou do extraordinário em Allan Poe. Um casal próximo da perfeição, convenhamos.

A entrada de Nicolas em sua vida dá início a um despertar, como se apenas a partir deste momento ela começasse a viver, no sentido pleno da palavra, e não apenas pela conexão que eles possuem, mas pela queda de diversas cortinas que a escondiam de sua verdadeira vocação, de seu verdadeiro passado.

Tudo estava lindo e maravilhoso, com destaque para um encontro (date para os mais modernos!rs) que qualquer amante de História mataria para ter. Contudo, o mal sempre está a espreita como já nos ensinou Tolkien e ódios antigos associados à uma profecia ainda mais remota pode colocar tudo a perder, inclusive, a vida da própria Olívia.

Lutando por amor e justiça ela embarca em uma aventura repleta de batalhas, descobertas, despedidas e sacrifícios, dando o toque de aventura e fantasia ao romance.

Sangue Azul é o livro de estreia da escritora e historiadora Ana Carolina Delmas, minha amiga e antiga colega de turma na UERJ. Sua formação sem dúvida contribuiu para as diversas referências históricas, que emolduram o enredo, mas sem deixar o leitor desesperado para fazer grandes buscas pelo Google.

É uma leitura jovem, criativa e facílima de cativar os amantes do gênero.

Barba ensopada de sangue

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Daniel Galera, o nome do momento na literatura brasileira contemporânea, e garanto que não é à toa.

Barba ensopada de sangue é um livro intenso, elaborado e com personagens tão concretos que dá vontade de abraçar. Escrito todo no presente, uma tendência atual, nos faz entrar ainda mais na história.

Com uma narrativa incrível, diálogos ágeis e bem construídos (sem aquela artificialidade com a qual, por vezes, esbarramos por aí), um narrador impessoal nos faz acompanhar a trajetória de nosso herói, um professor de educação física sem nome, cuja condição neurológica o impossibilita de armazenar as feições humanas, ou seja, ele não lembra de ninguém, sequer do próprio rosto.

Rosto este, idêntico ao de seu avô, Gaudério, cujo trágico e misterioso destino o protagonista sem nome toma conhecimento através do pai, pouco antes deste falecer, de forma não menos conturbada, e o deixando com uma incumbência pra lá de estranha, que ele opta por ignorar.

E como se não fosse o bastante, ele ainda tem que lidar com um irmão e uma namorada que o traíram. Diante disso tudo, ele toma uma decisão. Reúne suas coisas, pega a Beta, a cachorra que fora de seu pai a vida toda, e deixa Porto Alegre.

Seu destino? Garopaba. O lugar onde supostamente seu avô, um homem rude que tinha sempre a “peixeira” na mão, foi assassinado em circunstâncias suspeitas.

Mas se estão pensando que ele foi para o ensolarado balneário catarinense, estão muito enganados. A Garopaba que o recepciona é gelada e cinza. Nada de turistas indo e vindo, bares lotados e coisas do gênero. São só nosso amigo, Beta, muito mofo e um mito a ser desvendado.

Mito com o qual o homem sem nome se funde, assim como busca se fundir ao mar e a natureza.

E ao fim da leitura voltamos à introdução para percebermos que um ciclo se fecha e se renova, um ciclo de sangue.

Adoro quando isso acontece. Chegar ao final, voltar ao início do livro e “click”, tudo se conecta perfeitamente.

: Vídeo promocional do Romance para o Prêmio Portugal Telecom de Literatura

Álbum Duplo – Um Rock Romance

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No último post de 2013 lembro de dizer que livros com trilha sonora são como metades da laranja se encontrando em um belo pôr do sol. E não é que 2014 já me presenteou com esta linda cena?!

Álbum duplo, de Paulo Henrique Ferreira, é um livro para ser lido com trilha sonora, que por sinal, é indicada a cada capítulo.

Sintam o drama!

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E como podem ver, não é QUALQUER setlist, é Um Rock Romance. Ao som de Bob Dylan, Lou Reed, David Bowie, Rolling Stones, Beatles, e outras lendas, acompanhamos a saga do professor de história Marlo Riogrande para sair da grande M em que se meteu, uma verdadeira sinuca de bico, como ele mesmo diz.

Já tendo passado da idade de levar o lema “Sexo, drogas e rock and roll” ao pé da letra, como nos tempos da faculdade, Marlo vacila feio com a garota dos seus sonhos e entre idéias mirabolantes e reflexões sobre a vida, passa o livro tentando sair da fossa para recuperar o grande amor da sua vida (que ele, obviamente, precisou perder para chegar a essa conclusão, um clássico!rs).

Pode parecer uma fórmula batida, mas o diferencial é que as músicas não são meras coadjuvantes na história, elas interagem, servem de orientação e ajudam nosso amigo a se levantar.

É livro de um dia só. 176 páginas de leitura fácil, gostosa e irônica na medida certa, além de ser divertidíssimo ler de headphones, ao som do bom e velho Rock and Roll.

Ahhhh, já ia esquecendo….Beijo no Dave Grohl! :*

O lado bom da vida

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Todos nós passamos por fases ruins ao longo da vida, mas Pat Peoples parece ter levado essa afirmação muito a sério.

Depois de um período em um hospital psiquiátrico, Pat não é mais o mesmo homem. Perdeu o emprego, a mulher, Nikki, e está morando novamente na casa dos pais, o que para um norte-americano na casa dos trinta não é lá motivo de orgulho.

Para conseguir o que perdeu de volta, principalmente a mulher, terminando de uma vez por todas com o “tempo separados”, ele se baseia em dois pilares. Um: sua vida é um filme, que tendo Deus como diretor, só pode resultar em um final feliz. Dois: às vezes é “melhor ser gentil do que ter razão” (essa filosofia eu preciso adotar!rs).

Mas talvez como nos filmes, o herói precise passar por diversas provações até alcançar o tão esperado final feliz. Para isso, entre exaustivos exercícios físicos, visitas ao psiquiatra e jogos dos Eagles, Pat busca montar o quebra cabeça que sua vida se tornou, pois como se tudo já não fosse o suficiente, ele não se lembra do que o levou ao “lugar ruim”, e apesar do carinho e atenção da mãe, do irmão e do amigo de infância, todos parecem querer esconder algo dele. Isso sem falarmos no pai, que mal o encara, não sabendo Pat se por culpa dele ou do péssimo desempenho dos Eagles no campeonato.

E o leitor? Onde fica no meio disso tudo? Nós estamos ali, ao lado de Pat, a cada pergunta, cada Kenny G torturando sua mente, e a cada (re) descoberta, juntando as peças, levantando teorias, rindo e nos surpreendendo.

É uma história sobre depressão, sobre fases ruins, afinal “shit happens”. Mas Matthew Quick não trata disso de uma forma pesada, pelo contrário, é engraçado, irônico, chegando a tirar um pouco os pés do chão. Sem ser pedante ou pregando uma felicidade “prozac” que talvez outros não conseguissem fugir ao falar de superação.

Por fim, agradeço meu recente interesse por futebol americano, pois ele tem uma considerável importância nas relações de Pat. Isso não significa que aquele que sequer assistiu a uma partida na vida deva se acanhar, toda a história será compreendida, mas o jogo é bem bacana, vale à pena tentar entender e assistir a próxima final do Super Bowl.

E mais uma coisa, Ahhhhhhhhhhhhhhhhh E!-A!-G!-L!-E!-S! (rsrsrs)

Serena

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Com um início que nos diz tudo e não nos diz nada, Serena, do escritor inglês Ian McEwan, se mostrou uma ótima surpresa. E por que digo isso? Pois não sabia da existência deste livro até decidi dar de presente à minha mãe outro título deste autor, Reparação (Ela amou o filme e o livro!). Enquanto o buscava, me deparei com a história que compartilho agora.

Lida a sinopse, logo me interessei. E não havia como ser diferente. Uma mulher linda e inteligente que na década de 70 se torna espiã do Serviço de Segurança britânico. Mas aos poucos se descobre que não há nada de glamouroso nisso.

A vida, teoricamente perfeita, da filha de um conceituado bispo anglicano apaixonada por literatura, não passa incólume às transformações das décadas de 60 e 70. A crise econômica e o terrorismo ganham crescente espaço nas discussões cotidianas. Isso sem falarmos do movimento hippie, cuja experiência de Serena, vivida através de sua irmã, não é das mais positivas.

Formada em matemática, a contragosto e sem louvor, na faculdade de Cambridge, Serena havia se envolvido com um homem mais velho e influente, que mesmo não estando presente em boa parte de sua vida, termina por influenciá-la para sempre ao moldá-la para trabalhar no MI5, um braço do Serviço de Segurança britânico.

Abandonada e ressentida, ela busca seu lugar na “guerra contra a mente totalitária”, mas dentro da Inteligência Britânica se vê envolta pela burocracia estatal. Papéis e mais papéis, retratando velhas e novas batalhas. Entre dossiês soviéticos e agentes infiltrados no IRA, ela descobre na pele os problemas que um “casinho” com um colega de trabalho pode trazer, a discriminação sexual, e o consequente baixo salário.

Até que Serena é convocada para participar de uma modalidade mais discreta de batalha, a cultural. Uma guerra ideológica travada nas entrelinhas. Seu papel? Agenciar um escritor, Thomas Haley, para que ele, involuntariamente, tome partido nessa guerra travada através da caneta e do papel. Mas antes mesmo de conhecê-lo, ela se deslumbra com o criador que pode estar por trás da criatura.

O interesse revela-se mútuo, e mesmo quebrando todas as regras ela se envolve como nunca com seu objeto de trabalho. O relacionamento proibido acaba por trazer toda uma bagagem de mentiras, que quando reveladas trarão a desgraça e a redenção a esse inusitado casal.

Ao fim, a história te laça. Sem perceber, quando já não faltam muitas páginas para o término, suas pernas enfraquecem e ao ler as últimas linhas você está de joelhos, aos pés da história, completamente apaixonado pelo livro.

Foi uma daquelas histórias com o qual fiquei convivendo mesmo depois do livro voltar para a estante. Mas infelizmente, não poderei contar exatamente o porquê. Seria spolier demais!