Dias Perfeitos

Dias Perfeitos

A perfeição é algo subjetivo, se moldará a cada um de nós de acordo com nossa psique, nossas experiências e expectativas. Para Téo, protagonista desta trama, a ideia do que é perfeito pode ser algo bastante assustador.

Como estudante de medicina e aspirante à patologista, Téo se sente mais à vontade entre cadáveres. Aos vivos tinha de mentir, fingir, sempre tendo que imaginar como deveria reagir às situações mais simples da vida, pois sua mente não funcionava como as demais. Certo dia é compelido a acompanhar sua mãe paraplégica a um churrasco e lá conhece Clarice, que não lia Lispector, mas estudava História da Arte e almejava ser cineasta, já tinha até roteiro pronto, ao menos o esboço de um filme chamado Dias Perfeitos.

Obcecado por Clarice, tão diferente das outras garotas, Téo passa a segui-la, quer saber tudo sobre sua vida, e à par das informações a pressiona por uma chance, afinal, foram feitos um para o outro, ele só precisava mostrar à ela. Mas como? Sequestrando-a. Quem nunca?

Seu plano, elaborado aos trancos e barrancos de acordo com o desenrolar dos acontecimentos, é mantê-la junto de si, mesmo que para isso tenha de sedá-la inúmeras vezes, e seguir o roteiro de viagem que Clarice havia elaborado em seu longa. Meses se passam e de Teresópolis à Ilha Grande a rotina dos dois se altera apenas em alguns momentos de reviravoltas. Ele, determinado e frio, a obriga a escrever, parar de fumar e tenta moldá-la em uma “pessoa melhor” aos seus sombrios olhos. Ela mostra-se por vezes submissa, por vezes enfurecida, e colocando-nos em seu lugar, o que chega a acontecer inevitavelmente, nos perguntamos: O que eu faria? Obviamente, nada do que ela fez, talvez só um pouquinho.

O livro é perturbador, e é essa característica que o faz carregar uma boa história. Se propõe como um triller psicológico e é isso que entrega. Através de uma narração em terceira pessoa, mas totalmente focada em Téo, vemos como sua mente doentia trabalha, suas linhas de raciocínio, chocantes aos nossos olhos. Nada de psicopatas que amamos à lá Dexter. Também não temos nenhum gênio ou algo parecido, os personagens com os quais esbarra ao longo da trama é que deixam a desejar intelectualmente, além de tudo dar certo para ele como em passes de mágica.

Sobre o final, pois como já afirmei eles são importantes, principalmente nesse tipo de literatura, digo que fiquei maquinando diversas opções (o que foi uma experiência super bacana e angustiante concomitantemente) que ele poderia seguir da metade do livro em diante. Ele seguiu por um caminho que não foi dos meus preferidos e acabou demorando um pouco para chegar lá.

Se indico a leitura? Claro! E pelo que vi por aí o final é mesmo controverso, uns amam, outros odeiam.

Eu, particularmente, gostei mais de Suicidas, o livro de estreia do Raphael, um escritor que devemos ficar de olho, pois faz um trabalho que não pode em hipótese alguma ser ignorado.

Sugiro que leia os dois livros e depois vem aqui me contar o que achou. 😉

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de fevereiro.

Tema: De suspense

Anúncios

Suicidas

suicidas

Jovens trancados em um lugar afastado começam a matar uns aos outros. Poderia ser o ponto de partida para um filme de terror adolescente ruim, mas Raphael Montes usa esses elementos para escrever um texto ousado e com bastante personalidade, principalmente se considerarmos que é seu livro de estreia.

Suicidas relata a história de nove jovens da classe média alta do Rio de Janeiro que decidem fazer uma roleta-russa. O objetivo não era o jogo pelo jogo, mas sim que todos estivessem mortos ao final. O porquê dessa tragédia ainda não tinha sido desvendado quando a polícia, um ano após o episódio, decidiu reunir as mães dos suicidas para apresentar uma evidência até então não revelada e buscar respostas. Por que jovens, aparentemente, sem motivos se mataram?

De forma não linear, caminhando entre o presente e o passado, a narrativa alterna a transcrição da gravação do conturbado encontro da Delegada com as mães dos jovens, a leitura do diário de um dos suicidas, Alessandro, e as anotação feitas em tempo real pelo mesmo no dia e ao longo do ocorrido. Desta forma, a história e a narrativa formam um verdadeiro quebra-cabeças; vamos reconstruindo os passos dos suicidas, encontrando pistas aqui e ali que irão nos encaminhar para o gran finale . É um livro policial, é óbvio que tem um grande mistério a ser descoberto, algo que está apenas nas entrelinhas, nas suspeitas de um ou de outro.

A parte mais intensa, obviamente, são as anotações de Alessandro sobre o que aconteceu no porão da afastada Cyrille’s House. Forçados aos seus limites, máscaras desabaram e algumas verdades vieram à tona, assim como toda a violência. Cenas bem fortes foram lidas, inclusive, acompanhadas de algumas caretas. Mas o importante é que entre uma transcrição e uma página de diário, você se pega ansioso para a próxima anotação do fatídico dia.

O final. Ah, o final. Passou perto de um clichê nos últimos momentos, mas desviou e me ganhou na última frase.

Considerei o livro muito bom. Alguns podem ficar um pouco confusos com a leitura intercalada, mas aos poucos ela vai fluindo e as 488 páginas são lidas rapidamente.

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de janeiro.

Tema: De autor brasileiro