Corações Sujos

Quando se diz a alguém que fizemos História, tenho a impressão que trocam nosso rosto pela imagem de uma enciclopédia, capaz de responder às mais variadas e estapafúrdias perguntas. Mas diferente do imaginário popular, nós não sabemos tudo, pelo contrário, com o passar do tempo cheguei à conclusão que sabemos bem menos do que gostaríamos, inclusive sobre História.

Tive uma de minhas últimas revelações ao ler Corações Sujos, do jornalista Fernando Morais, por indicação de uma amiga (Obrigada Lu!) que estava adorando o livro, e descobri que não era à toa. O livro, na verdade, é uma grande reportagem sobre a Shindo Renmei, como o próprio subtítulo nos adianta.

O cenário é o pós Segunda Guerra Mundial, quando em 1945, o Eixo é derrotado, com um final tristemente cinematográfico e altamente questionável (como se uma guerra por si só não fosse questionável?!): as bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagazaki, que sujaram de cinzas e sangue o já derrotado Japão.

Enquanto a Europa dividia o espólio de guerra, no Brasil, os japoneses que haviam imigrado anos antes se viram diante de um dilema até então desconhecido: Como acreditar na derrota do Império do sol nascente? Como acreditar que Hiroíto, o próprio deus encarnado, havia perecido?

Com o desenrolar da guerra, a posição de Vargas, então presidente do Brasil, não era muito clara; assumiu uma postura de neutralidade, mas flertando com os ambos os lados, principalmente com a Alemanha de Hitler. Por fim, contrariando as predições, por motivos políticos e econômicos, declarou guerra ao Eixo. E a partir deste momento, os japoneses passaram ao status de nacionais de uma nação inimiga.

A consequência? Uma série que parecia interminável de restrições que haviam tido início há alguns anos com a política repressiva do Estado Novo e se aprofundado com a tomada de partido na guerra. Os japoneses estavam proibidos de falar a língua pátria, seus bens sequestrados, a impressa censurada passou a ser definitivamente proibida, com o fechamento de jornais e revistas impressos em japonês, dentre outras medidas. Soma-se a isso a falta de uma representação oficial, afinal, o rompimento de relações diplomáticas fez com que a delegação do Japão se retirasse do Brasil.

Com o abandono à própria sorte, diversas organizações fizeram as vezes de liderança na colônia nipônica brasileira, e uma delas teve papel de destaque: A Shindo Renmei, nascida em São Paulo, estendeu suas ações do interior à capital do estado, ganhando espaço, inclusive, em discussões no Congresso Nacional.

Esta sociedade, agindo na clandestinidade, liderava e era liderada por homens, no sentido estrito da palavra, criados no Yamato Damashii, ou “espírito japonês”, conceituado por Fernando Morais como “o padrão de comportamento ideal que o militarismo ultranacionalista japonês adotara como doutrina” (p. 74), e que os faziam negar e propagar, inclusive com pseudo provas (panfletagem, reportagens e fotografias adulteradas), a ideia que o Japão não só não havia perdido a guerra, como estava saindo vitorioso da mesma (até papel moeda dos países aliados com o selo japonês foram apreendidos pela polícia).

Estavam decididos: Era tudo propaganda inimiga!

E fez-se o caos. De um lado, os kachigumi, nacionalistas extremados, se recusavam a acreditar na derrota do Império e a aceitar que qualquer japonês se deixasse enganar com tal infâmia. Estes, os makegumi, foram automaticamente colocados do lado oposto, inimigos derrotistas e alvo de uma série de ameaças e atentados, pois para os membros da Shindo os “corações sujos” deveriam “lavar a garganta” com seu próprio sangue por terem difamado a nação e o Imperador, e caso não o fizessem de bom grado, os tokkotai, braço amadoramente armado da sociedade, se encarregariam disso.

De posse do nome do makegumi marcado para morrer, partiam com algum dinheiro para os gastos, armas para a concretização da ordem e sob a roupa, a bandeira do Japão. Entre atentados frustrados e assassinatos bem sucedidos, espalharam o medo pela colônia japonesa, mas não se restringindo a esta.

É difícil, aos nossos olhos, tentar compreender o que passava na cabeça destas pessoas que insistiam em afirmar que o Japão ganhara a guerra, não importando quem os falasse o contrário ou quais e quantas evidências lhes fossem apresentadas. Tinham certeza de uma coisa, se fosse realmente verdade, o Imperador e boa parte da nação não se renderiam, mas em prol da honra teriam se sacrificado, e como isso não ocorrera…

O clima de tensão havia penetrado o ar e muitos se utilizaram da inocência e do desespero de japoneses humildes, que compravam passagens em um navio imaginário que os levaria de volta à terra natal e pagavam pelo iene valores bem acima da cotação.

Por minhas pesquisas e por tudo que já li e ouvi sobre a cultura japonesa, acredito que alguns setores, inclusive dentro da própria colônia e da Shindo, se aproveitaram desta cultura do Yamato Damashii, que tem, como tudo na vida, o lado positivo, como a disciplina e a dedicação, mas que também pode levar, como no episódio descrito no livro, a um fundamentalismo exacerbado, se me permitem cometer uma hipérbole.

Vejo este trabalho do Fernando Morais como resultado de um bom faro jornalístico, como outros livros de sua autoria. Queria estar presente no momento em que ele teve o estalo “opa, isso dará uma boa história”.

O livro virou filme lançado este ano (2012). Ainda não vi, mas segue o link do trailer.

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