O Restaurante no Fim do Universo

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“Há uma teoria que diz que se um dia alguém descobrir exatamente qual é o propósito do Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais bizarro e inexplicável.”

“Há uma outra teoria que diz que isso já aconteceu.”

O Universo é uma piada de mal gosto, mas contada com muito bom humor por Douglas Adams. Coisas, pessoas e acontecimentos podem não tem o menor sentido, mas coincidências e ironias são uma constante no segundo volume da série O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Nessa etapa da aventura, Arthur Dent está enlouquecido em busca de uma simples xícara de chá, algo que o gerador de probabilidade infinita mostrou-se incapaz de fazer, enquanto os demais tripulantes da nave Coração de Ouro percebem o iminente ataque de uma nave Vogon, isso mesmo, aqueles que não são conhecidos pela hospitalidade e simpatia. Na apressada fuga, mais obra do sobrenatural do que da tecnologia, eles atravessam dimensões de tempo e espaço, passando por elevadores temperamentais e um universo pra lá de suspeito, até se verem no famoso Restaurante no Fim do Universo, onde é possível trocar uma ideia com o Prato do Dia antes dele se transformar em um suculento bife, e observar aquele especial momento em que TUDO chega ao fim em um espetáculo de explosões.

Contudo, o objetivo da trupe não era só fazer uma bela refeição. Aparentemente, uma antiga versão de Zaphod Beeblebrox, o ex-presidente da Galáxia, achava importante encontrar o homem que rege o Universo, e em paralelo, a pergunta para a resposta ~ que eles já tinham ~ sobre a questão da vida, do universo e tudo mais.

Brincando novamente com a pequenez humana, Adams ironiza nosso ego e comportamento egoísta, que muitas vezes chega a ser desumano e insano. Sua crítica às instituições e à forma como lidamos com nós mesmos e com os outros em sociedade permanece no segundo livro da série, e ouso dizer que até mais do que no primeiro, principalmente em razão dos últimos capítulos, uma narração sagaz e ácida sobre o início de tudo.

É um livro divertido e crítico ao mesmo tempo. Não é o riso pelo riso apenas.

 DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre , mês de março.

Tema: Divertido

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O Jovem Sherlock Holmes – Nuvem da Morte

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Não é novidade o fato de eu AMAR as histórias de Sherlock Holmes, no cinema, na TV e, obviamente, nos livros. Sendo assim, a versão adolescente do detetive criada por Andrew Lane estava na mira há algum tempo.

A maioria de nós conheceu Sherlock sob o olhar construído por Conan Doyle. Um detetive que já passara dos 30 e em pleno gozo de suas habilidades dedutivas. Contudo, pouco nos foi informado sobre sua juventude, e é aí que Nuvem da Morte, o primeiro livro de uma coleção intitulada O Jovem Sherlock Homes, entra, trazendo novidades sobre esse personagem tão querido.

Com apenas 14 anos Sherlock foi obrigado por seu irmão mais velho Mycroft a passar as férias na casa de tios que nunca haviam lhe sido apresentados. Afastado de casa e da família, sua costumeira solidão se aprofunda, pelo menos até conhecer Matthew Arnatt, um menino completamente solto no mundo e com o qual passa a desbravar as redondezas da pequena Farnham. Outro personagem que surge para retirar o jovem do tédio é o Sr. Amyus Crowe, um tutor contratado por Mycroft, que não restringia suas lições à aulas sobre a natureza e o modo como observar o mundo, na verdade, estava mesmo era ensinando-o a pensar.

E é entre as andanças com Matt e Crowe que Sherlock esbarra em duas mortes assustadoras e inexplicáveis, que logo se tornarão seu primeiro mistério. Um investigação regada a muita correria, perseguições e escoriações se desenrola, colocando a vida de Sherlock e a dos que o cercam em risco em mais de uma oportunidade, dando uma boa porção de ação à trama.

A narrativa corre fluida, com breves momentos que considerei dispensáveis, mas no geral prende o leitor, que avançará as páginas ansioso pelas descobertas do ainda inexperiente, mas já sagaz, intelecto de nosso amado detetive.

Percebe-se que Lane foi cuidadoso ao construir um cenário crível para o período histórico em que o jovem Sherlock é inserido, talvez com uma licença poética aqui e ali para não afastar o público infanto-juvenil, cujo livro busca alcançar.

Minha esperança, e imagino que essa seja a ideia do autor, é que ao longo dos livros o personagem vá se desenvolvendo, quem sabe até o período da narrativa de Conan Doyle.

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de fevereiro.

Tema: Da minha fila de leitura

Dias Perfeitos

Dias Perfeitos

A perfeição é algo subjetivo, se moldará a cada um de nós de acordo com nossa psique, nossas experiências e expectativas. Para Téo, protagonista desta trama, a ideia do que é perfeito pode ser algo bastante assustador.

Como estudante de medicina e aspirante à patologista, Téo se sente mais à vontade entre cadáveres. Aos vivos tinha de mentir, fingir, sempre tendo que imaginar como deveria reagir às situações mais simples da vida, pois sua mente não funcionava como as demais. Certo dia é compelido a acompanhar sua mãe paraplégica a um churrasco e lá conhece Clarice, que não lia Lispector, mas estudava História da Arte e almejava ser cineasta, já tinha até roteiro pronto, ao menos o esboço de um filme chamado Dias Perfeitos.

Obcecado por Clarice, tão diferente das outras garotas, Téo passa a segui-la, quer saber tudo sobre sua vida, e à par das informações a pressiona por uma chance, afinal, foram feitos um para o outro, ele só precisava mostrar à ela. Mas como? Sequestrando-a. Quem nunca?

Seu plano, elaborado aos trancos e barrancos de acordo com o desenrolar dos acontecimentos, é mantê-la junto de si, mesmo que para isso tenha de sedá-la inúmeras vezes, e seguir o roteiro de viagem que Clarice havia elaborado em seu longa. Meses se passam e de Teresópolis à Ilha Grande a rotina dos dois se altera apenas em alguns momentos de reviravoltas. Ele, determinado e frio, a obriga a escrever, parar de fumar e tenta moldá-la em uma “pessoa melhor” aos seus sombrios olhos. Ela mostra-se por vezes submissa, por vezes enfurecida, e colocando-nos em seu lugar, o que chega a acontecer inevitavelmente, nos perguntamos: O que eu faria? Obviamente, nada do que ela fez, talvez só um pouquinho.

O livro é perturbador, e é essa característica que o faz carregar uma boa história. Se propõe como um triller psicológico e é isso que entrega. Através de uma narração em terceira pessoa, mas totalmente focada em Téo, vemos como sua mente doentia trabalha, suas linhas de raciocínio, chocantes aos nossos olhos. Nada de psicopatas que amamos à lá Dexter. Também não temos nenhum gênio ou algo parecido, os personagens com os quais esbarra ao longo da trama é que deixam a desejar intelectualmente, além de tudo dar certo para ele como em passes de mágica.

Sobre o final, pois como já afirmei eles são importantes, principalmente nesse tipo de literatura, digo que fiquei maquinando diversas opções (o que foi uma experiência super bacana e angustiante concomitantemente) que ele poderia seguir da metade do livro em diante. Ele seguiu por um caminho que não foi dos meus preferidos e acabou demorando um pouco para chegar lá.

Se indico a leitura? Claro! E pelo que vi por aí o final é mesmo controverso, uns amam, outros odeiam.

Eu, particularmente, gostei mais de Suicidas, o livro de estreia do Raphael, um escritor que devemos ficar de olho, pois faz um trabalho que não pode em hipótese alguma ser ignorado.

Sugiro que leia os dois livros e depois vem aqui me contar o que achou. 😉

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de fevereiro.

Tema: De suspense

Suicidas

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Jovens trancados em um lugar afastado começam a matar uns aos outros. Poderia ser o ponto de partida para um filme de terror adolescente ruim, mas Raphael Montes usa esses elementos para escrever um texto ousado e com bastante personalidade, principalmente se considerarmos que é seu livro de estreia.

Suicidas relata a história de nove jovens da classe média alta do Rio de Janeiro que decidem fazer uma roleta-russa. O objetivo não era o jogo pelo jogo, mas sim que todos estivessem mortos ao final. O porquê dessa tragédia ainda não tinha sido desvendado quando a polícia, um ano após o episódio, decidiu reunir as mães dos suicidas para apresentar uma evidência até então não revelada e buscar respostas. Por que jovens, aparentemente, sem motivos se mataram?

De forma não linear, caminhando entre o presente e o passado, a narrativa alterna a transcrição da gravação do conturbado encontro da Delegada com as mães dos jovens, a leitura do diário de um dos suicidas, Alessandro, e as anotação feitas em tempo real pelo mesmo no dia e ao longo do ocorrido. Desta forma, a história e a narrativa formam um verdadeiro quebra-cabeças; vamos reconstruindo os passos dos suicidas, encontrando pistas aqui e ali que irão nos encaminhar para o gran finale . É um livro policial, é óbvio que tem um grande mistério a ser descoberto, algo que está apenas nas entrelinhas, nas suspeitas de um ou de outro.

A parte mais intensa, obviamente, são as anotações de Alessandro sobre o que aconteceu no porão da afastada Cyrille’s House. Forçados aos seus limites, máscaras desabaram e algumas verdades vieram à tona, assim como toda a violência. Cenas bem fortes foram lidas, inclusive, acompanhadas de algumas caretas. Mas o importante é que entre uma transcrição e uma página de diário, você se pega ansioso para a próxima anotação do fatídico dia.

O final. Ah, o final. Passou perto de um clichê nos últimos momentos, mas desviou e me ganhou na última frase.

Considerei o livro muito bom. Alguns podem ficar um pouco confusos com a leitura intercalada, mas aos poucos ela vai fluindo e as 488 páginas são lidas rapidamente.

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de janeiro.

Tema: De autor brasileiro

Mrs. Dalloway

Mrs. Dalloway_OqueequeolivrotemUm dia na vida de Clarissa Dalloway é o que devemos acompanhar em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Um dos grandes clássicos da literatura inglesa e também um livro desafiador sob o ponto de vista do leitor. Um história simples, mas cuja narrativa a transforma em algo tão complexo como a própria condição humana.

Casada com um político britânico conservador da década de 1920, Clarissa está envolvida com os preparativos para a festa que oferecerá à noite quando lembranças, amores e amigos do passado batem à sua porta fazendo com que seus pensamentos vaguem ainda mais para um ponto distante de sua juventude, a levando a refletir sobre o tempo, suas escolhas e sua vida.

O saudosismo impera em diversos momentos, alternando presente e passado, mas também com breves toque de futuro, pois a alternância também se dá sobre a narrativa e os personagens. Não há um único narrador ao longo de toda a trama, as consciências dos sujeitos aparecem e desaparecem em um atravessar de rua, ao abrir uma porta ou ao ouvir o som de um carro.

Vemos Peter Walsh rememorar seus sentimentos por Clarissa, criticá-la mentalmente, questionar-se sobre seu novo amor e observar o frescor da juventude. Temos uma pequena amostra da mente organizada de Richard Dalloway, assim como somos assombrados pela consciência traumatiza pela Guerra de Septimus Smith, cujo pensamento suicida aterroriza Lucrezia, sua esposa, da qual partilhamos as dúvidas e o desespero. Outros personagens também tem suas subjetividades descortinadas sob nosso olhar, sem aviso ou pausa, e é isso que torna a obra brilhante e perturbadora.

Conhecendo a história da autora torna-se impossível não reconhecer Virginia Woolf aqui e ali entre pensamentos e reflexões de seus personagens.

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Por fim, um aviso, não é um livro para se começar a ler Virginia Woolf, pelo menos essa é a minha opinião. Como dito, Mrs. Dalloway não segue uma narrativa linear tradicional, que é com o que lidamos no dia a dia. Só consegui lê-lo até o fim na segunda tentativa, depois de parar e pesquisar uma pouco sobre a autora e seu método de escrita, o fluxo de consciência, que faz com que vejamos os personagens de dentro para fora.

DL do TigreLivro lido para o Desafio Literário do Tigre, mês de janeiro.

Tema: Escrito por uma mulher

Desafio Literário do Tigre 2015

Eu sei que devo estar recebendo olhares desconfiados, até de mim mesma, confiem. Mas sim, tentarei seguir o Desafio Literário do Tigre de 2015 sugerido pela Tati do ECGMN.

A versão de 2014 foi abandonada em Agosto, justamente quando descobri um problema sério, e doloroso, na coluna. Tive que concentrar todas as minhas forças nisso e o DLdoTigre acabou ficando em segundo plano, como quase todo o resto na minha vida e por fim, foi abandonado.

Mas, como dizem por aí: Ano novo, vida nova, não é mesmo? O problema persiste, e terei que lidar com ele, mas chorar sobre a coluna derramada (foi um trocadilho péssimo, ok, sorry) não o resolverá. Então, vamos aos pormenores.

O Desafio está diferente esse ano. São 24 temas, 2 livros por mês. Mas seremos nós muchachos quem decidiremos quais temas ler antes do mês começar. Dá uma olhadinha na lista:

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E mais, esse ano vale releitura!

Rezando para que tudo dê certo, que o Desafio comece!

O Guia do Mochileiro das Galáxias

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s.f. Faculdade de representar objetos pelo pensamento: ter uma imaginação viva./Faculdade de inventar, criar, conceber: artista de muita imaginação.

Quando Aurélio escreveu esse verbete, Douglas Adams já ensaiava como explorá-lo ao máximo para criar um dos clássicos da ficção científica, O Guia do Mochileiro das Galáxias. O volume um da trilogia de cinco, cuja história é a de um cara comum que, em uma relação de improbabilidade infinita, se vê perambulando pelo Universo ao lado de seu amigo extraterrestre com uma toalha nos ombros.

Esse cara se chama Arthur Dent e certa vez ele acordou esperando por mais um típico dia inglês, mas se deparou com homens e máquinas preparados para derrubar sua casa. Em meio a protestos, chiliques e muita lama, Arthur foi convencido por seu amigo Ford Prefect a se dirigir ao bar mais próximo, pois eles definitivamente precisariam de alguns chopes antes do iria acontecer, nada mais, nada menos, que a destruição da “praticamente inofensiva” Terra.

E assim, antes do meio-dia Arthur descobriu que não só a sua casa seria destruída, mas todo o Planeta, que Ford era um alienígena disfarçado de ator desempregado, mas que na verdade fazia pesquisa de campo para uma atualização do Guia do Mochileiro das Galáxias, e pretendia salvá-los pegando carona em uma nave vogon, deixando bem claro aqui que os vogons não são conhecidos por sua hospitalidade.

De aventura em aventura, Arthur e Ford vão encarando situações cômicas, muitas delas sem qualquer parâmetro na realidade. Reencontram parentes, como o primo de Ford, o excêntrico Zaphod Beeblebrox, atual Presidente da Galáxia, que viajava em uma nave roubada na companhia de Trillian, um flerte não muito bem sucedido de Arthur, ainda na Terra. Muitas coincidências, ou não.

No meio desses reencontros inesperados e de algumas descobertas reveladoras, ou nem tanto, a escrita de Adams, carregada na ironia e nas piadas, muitas das vezes, subentendidas, revela uma verdadeira crítica ao homem, a nossa obsessão pela burocracia, à política e à sociedade como um todo.

Vale a pena se permitir rir e entrar nesse mundo caótico de Adam e descobrir que o verdadeiro caos está dentro de nós, individual e coletivamente.

Mas não esqueçam, antes de tudo: NÃO ENTRE EM PÂNICO!

untitled (2) Tema de Agosto (“Risos”) do Desafio Literário do Tigre – √