O Conto da Aia

Acabou. E eu encarava a tela do kindle tentando processar tudo que eu acabara de ler. O medo, a revolta, a angústia e principalmente a impotência dividida com Offred, que é quem, através de relatos feitos em primeira pessoa, nos conta como é viver sob o domínio de um regime teocrático, cuja principal medida é o controle total e absoluto dos corpos femininos, para que estes sirvam apenas a um propósito, o da procriação. É aterrorizante.

O Conto da Aia é uma distopia, eu sei. Mas será mesmo ? Porque o que li está acontecendo AGORA em diversos lugares do mundo sob outras roupagens, em nome dos mais variados deuses e culturas, e como o mau está sempre a espreita, sabemos que tendo oportunidade a bancada da bíblia, e sua coirmã a bancada da bala, farão algo não muito diferente por aqui. E é isso que me deixou extremamente desolada. Os sinais de retrocesso estão aí, como a personagem também relata no livro, mas muitas vezes ficamos paralisadas, impotentes e perigosamente confiantes no sistema, na justiça, na ideia de que certos absurdos jamais passarão, como o congelamento de nossas contas bancárias ou a proibição do trabalho da mulher – de quantas bocas já ouvimos que o lugar da mulher é cuidando da casa, do marido e dos filhos?. Offred assitiu a isso tudo e acabou presa em um lugar no qual estupro, sequestro, tortura e o assassinato de mulheres foram adotados como política de Estado. Tiveram apoio para tal, e não só de homens, naturalmente, mas de mulheres também (Para quem leu, apenas digo: Não seja uma Tia!).

 O meu marido pode me defender, meu irmão, seu pai, namorado, algum amigo podem te defender, mas os homens como gênero e grupo não nos salvarão. Só nós, mulheres, podemos fazer isso. Acho que o recado, a lição, a moral, ou como você quiser nomear, é: Fiquemos atentas e unidas.

Obs: Sim, eu vim aqui sem dar qualquer explicação sobre o sumiço, mas é que eu precisava muito escrever sobre esse livro, nem que fossem apenas esses pequenos parágrafos.
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Trilogia Jogos Vorazes


Em ChamasA Esperança

Até que ponto você está disposto a ir para MANTER uma situação sobre controle?

Até que ponto você está disposto a ir para SAIR de uma situação de controle?

No futuro desolador de Suzanne Collins, a América do Norte, após grandes desastres naturais e guerras por recursos, deixou de existir nos moldes que a conhecemos e ressurgiu como Panem, uma Capital e treze distritos organizados de forma a manter a harmonia e a bonança. Mas nem tudo foram flores, pois os Distritos se revoltaram contra a Capital, que não só derrotou a todos, como aniquilou o décimo terceiro. Tal episódio ficou conhecido como os Dias Negros, a boa e velha história contada pelos vencedores; isso, pelo visto, não mudou. Em razão da traição dos Distritos, a Capital quis anualmente relembrar que esse período de conflito nunca deveria se repetir, e caso ocorresse os Distritos não teriam a menor chance. Tudo para manter o controle. O resultado foi a criação dos Jogos Vorazes, o bizarro reality show que dá nome ao primeiro livro da série.

Todo ano cada Distrito deve enviar compulsoriamente um menino e uma menina entre 12 e 18 anos, conhecidos como tributos, para lutarem entre si em uma arena até que apenas um sobreviva, enquanto toda a Panem acompanha o sofrimento e a violência à que esses jovens são impostos, tudo através de uma tela como se fossem as Olimpíadas. O “vencedor” é contemplado com uma vida financeiramente confortável durante o resto de seus dias, e seu Distrito receberá benesses, principalmente comida, tendo em vista que passar fome é algo bastante comum nos Distritos, e quanto mais afastados pior, como no caso do Distrito 12.

E é exatamente desse último Distrito que nossa heroína e narradora, Katniss Everdeen, surge. Ao ouvir o nome de sua irmã mais nova, Prim, na colheita ela entra em um rápido estado catatônico antes de fazer o inesperado: se voluntariar como tributo. Enquanto processa tudo que acontece ao seu redor, o nome do representante masculino da 74a edição dos Jogos Vorazes é chamado, Peeta Mellark, o filho do padeiro, a quem ela acredita dever um grande favor. Quais as chances?

Jogos Vorazes

Ah, as chances nunca são boas para os tributos do minerador Distrito 12; até então. Pois no desenrolar do primeiro livro, com a ida para a Capital e os Jogos propriamente ditos, vemos Katniss se destacar pelas habilidades desenvolvidas em anos de caça ilegal na companhia de seu até então melhor amigo, Gale. Contudo, no quesito habilidade social ela não é tão boa como com um arco e flecha, e é aí que Peeta se destaca, como um comunicador nato, além de ter o coração no lugar certo.

Na busca pela sobrevivência, Katniss faz o jogo que a audiência da Capital espera, afinal, é uma sociedade do espetáculo, e em uma manobra arriscada e cujas consequências ela não poderia ter previsto, consegue tirar ambos vivos da arena. Os Jogos finalmente tinham chegado ao fim.

Entretanto, no segundo livro, Em Chamas, ela descobre que, assim como Haymitch, antigo vencedor e mentor dos tributos do Doze, afirmou, os Jogos nunca terminam. O inusitado desfecho que terminou por salvá-los soou como um ato de esperança aos Distritos já insatisfeitos com o totalitarismo e revoltas começam a eclodir. Os habitantes da Capital, alheios ao que os cercam, adoram o casal como ídolos, enquanto o Presidente Snow só vê rebeldia e desafio, e ele não é de deixar nada barato.

A vida de Katniss e Peeta, assim como de suas famílias estão em risco, nenhuma atuação os salvará das represálias da Capital, que não descansará até vê-los na arena novamente, o que não tarda a acontecer com a “comemoração” do Terceiro Massacre Quaternário. Contudo, os rebeldes estão mais organizados do que a Capital podia esperar e o resultado desses novos Jogos pega todos de surpresa.

Chegando ao final e mais denso livro da trilogia, A Esperança/Mockingjay, Katniss é mais uma vez instrumento, entretanto, ao invés de estar à serviço dos caprichos da Capital, são os rebeldes que a utilizam como símbolo, o tordo/mockingjay, missão nada fácil de convencê-la a aceitar. Com o psicológico abalado e dúvidas com relação à Peeta, Gale, e sobre toda a revolução pipocando em sua mente já perturbada, ela ainda busca proteger a mãe e a irmã no meio do que já deixou de ser uma revolta, para se transformar em uma verdadeira guerra.

Com um desfecho digno de toda a construção narrativa, repleta de angustiantes e reflexivas reviravoltas, a saga se completa. Somos levados novamente ao limite da sanidade e do questionamento junto de Katniss, que terá de lidar com as consequências de tudo pelo que passou. Mas ela não está só, as sequelas, físicas e mentais, são partilhadas com os demais sobreviventes dessa guerra.

The Hunger Games

A Trilogia Jogos Vorazes, como disse quando fiz a resenha de Divergente, é através da qual a maioria começa a se aventurar nas distopias adolescentes. Talvez por ser pioneira, talvez por ser considerada a melhor. Eu, particularmente, achei que o ritmo narrativo, seco e ágil, faz com que o leitor devore os livros, partilhando o sofrimento, a dor, a sede, as dúvidas e as loucuras de Katniss. Esse é o diferencial. A angústia. A violência que se apresenta muito mais sobre a forma psicológica do que a tradicional, bruta.

Sobre o triângulo amoroso que muitos dos que leram os livros, ou viram os filmes podem estar se perguntando, não acredito que este seja o foco principal da história. Percebemos a aproximação de Katniss com o Peeta, as dúvidas que vão surgindo em relação aos seus sentimentos para com o Gale, mas tudo isso são complementos. Tem importância no desenrolar da trama? Claro que sim, Peeta principalmente, mas a história é muito maior. É sobre pobreza, autoritarismo, poder, ética, e sobre como e a que preço as pessoas buscam manter-se ou sair das situações descritas nos livros.

Não é (apenas) sobre o romance da Katniss, e esse é um dos pontos mais legais da saga. Ela em Jogos Vorazes, a Tris em Divergente, Valente em uma das animações da Disney, por exemplo. São os papeis femininos tendo destaque como protagonistas que questionam, que não esperam o príncipe encantado para ajudá-las/resgatá-las, elas estão ali como agentes de suas próprias vidas.

É uma trilogia distópica que vale muito a leitura, assim como os filmes, que apesar de não serem tão profundos, o que geralmente é a regra nas adaptações, também são interessantes, além de ter um elenco bem bacana e a Katniss sendo interpretada pela maravilhosa, e ganhadora do Oscar pelo seu papel em O Lado Bom da Vida, Jennifer Lawrence.

Trilogia Divergente


insurgente
convergente

Tenho muita dificuldade de falar sobre trilogias separadamente, talvez pelo fato de na maioria das vezes emendar uma leitura na outra, e ao fim não conseguir estabelecer os limites rígidos do que aconteceu em qual livro especificadamente. Acabo vendo a história na sua forma completa, início, meio e fim.

Sobre ser uma trilogia distópica, só tenho a dizer que ADORO o gênero, aquele futuro ficcional, que servindo de antítese à utopia, nos coloca diante de governos opressivos e totalitários serve de palco para boas histórias.

Contudo, ainda não tinha me rendido às versões mais recentes, mais jovens, nos quais essas sociedades são colocadas sob o ponto de vista do (a) protagonista adolescente, aquele que geralmente não se encaixa, e do qual se espera naturalmente os maiores questionamentos tendo em vista a fase da vida em que se encontra. E ao contrário da maioria, ao invés de começar por Jogos Vorazes, minha experiência inicial foi com Divergente. Talvez isso tenha tido algum tipo de influência sobre minhas opiniões acerca do último.

No futuro assustador de Veronica Roth a cidade de Chicago é a sobrevivente de uma guerra genérica que destruiu o restante do planeta, pelo menos essa é a informação que as altas cúpulas do Governo dão à população e à nós, leitores. Limitada por suas enormes cercas, a cidade se tornou autossuficiente com base em um sistema de facções, cujo principal objetivo era erradicar a natureza beligerante e propensa ao mal da humanidade, considerada a grande culpada pela guerra.

Contra a agressão formou-se a Amizade, contra a ignorância Erudição, contra a hipocrisia Franqueza, contra o egoísmo Abnegação e contra a covardia Audácia. O equilíbrio perfeito. Cinco facções nas quais toda a população deve se encaixar permanentemente quando completam 16 anos, ou não. O problema dessa última opção é que se o fizer o jovem é condenado a ser um sem-facção pelo resto de seus dias, o que significa ser praticamente um indigente.

Divergent-Factions

Sabendo disso podemos entender o drama de Beatrice quando o seu Dia D chega. Vinda da Abnegação, mas menos altruística do que se esperaria, suas esperanças foram depositadas no teste de aptidão, que deve apontar qual facção o jovem tem de dar, literalmente, o sangue. Contudo, as coisas não saem como o esperado e, além de ter que guardar um segredo que ela sequer entende, ela se vê em uma grande sinuca de bico, como diríamos aqui em terra brasilis. Agradar a família? Ser ela mesma? Mas quem era ela? Perguntas típicas de uma adolescente, mas aqui, nesse torto mundo, elas podem arruinar uma vida.

E é sobre essa escolha que o primeiro livro, Divergente, se desenrola, mas não é apenas isso. Inocentemente Beatrice, agora apenas Tris, está no meio de algo muito maior que ela, seu doloroso processo de iniciação, suas amizades, inimizades e a atração por um instrutor misterioso. Tem início uma verdadeira luta entre as facções, o que colocará o próprio sistema, não tão perfeito assim, em risco.

No segundo livro, Insurgente, o segredo de Tris é revelado, consequências precisam ser enfrentadas e lados tem de ser tomados. Uma guerra civil mostra-se cada vez mais inevitável frente às disputas de poder. Nesse contexto, ela há de lutar contra o sistema, a culpa e a dor, para salvar aqueles que ama, nem que isso signifique colocar sua vida em risco, o que ela faz com bastante frequência nesse segundo volume da saga.

Ao final do segundo livro uma informação bombástica abala as estruturas da já fragilizada e entregue ao completo caos Chicago e Tris, acompanhada dos amigos que lhe restaram, de um traidor, além de um inimigo pouco explorado pela autora e um namorado cujo romance  precisava de um pouco mais para me emocionar, se veem na obrigação de seguir a trilha que os leva para fora das cercas, para ver o que o mundão poderia oferecer.

Contudo, no terceiro e último livro da série, Convergente, eles descobrem que a realidade é bem mais complexa e intragável do que poderiam imaginar. Novamente Tris e Tobias, o namorado que agora também fala com os leitores através do seu ponto de vista, estão diante de escolhas difíceis e dolorosas em prol do bem maior.

Um dos pontos negativos foi exatamente o olhar do Tobias. Passamos dois livros o conhecendo através da Tris, observando suas ações e reações, mas quando ele vem falar com a gente parece bobo demais. Então o romance que já não estava lá muito cativante para os meus olhos, com exceção de alguns bons momentos, desanimou. Entretanto, acredito que no cinema a história possa ser outra, pois aparentemente Shailene Woodley (Tris) e Theo James (Tobias) conseguiram ser bem mais carismáticos como um casal.

Tris Tobias

Com bons momentos e um arrastar demasiadamente grande no terceiro livro, Divergente é uma leitura cujo saldo foi positivo. É fácil de ler, tem aquelas lições bacanas de democracia, igualdade, contra o preconceito, tudo com um toque de ficção científica.

Sobre o final, apenas posso dizer que era o caminho, estava ali o tempo todo, mas pega de surpresa sim, apesar de tudo.

Pode ser uma boa via de entrada no gênero distopia. Quem sabe partir para clássicos, como 1984 , Laranja Mecânica ou Admirável Mundo Novo? Verei se consigo reler um desses e resenho aqui, mas antes, vamos de Jogos Vorazes.