Histórias Extraordinárias

Sou uma eterna saudosista.
Não consigo me adaptar aos e-books. Gosto do cheiro de livro novo, do virar das páginas, de anotar nas entrelinhas.
Recentemente acrescentei à minha lista mais uma dificuldade de adaptação.
Deixe-me explicar.
Passei anos na resistência de comprar pela internet. Basicamente por falta de confiança. Por fim, a necessidade venceu. É incrivelmente mais barato! Mas tem um problema.
Você pesquisa exatamente o que quer. Com isso, onde foi parar a graça de entrar numa livraria por entrar, sem ter a menor ideia do que iria encontrar? Descobrir novos tesouros para a estante, ou redescobrir títulos ainda por ler. Aí que saudade de “fuçar” livrarias!
Por vezes me aventuro a navegar nas páginas das livrarias e sebos, mas quem é apaixonado por livros sabe que não é a mesma coisa. Falta passar os olhos nas estantes, “ler” os títulos com os dedos, sentar no café, folhear algumas páginas.
Isso não significa que parei por completo de frequentar livrarias. Não. A esperança é a última que morre; não é o que dizem por aí? E numa dessas tentativas, me deparei com este título:

Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe.

E uma vez mais, os livros de bolso fizeram minha cabeça e minha carteira. E ao vivo.

Desabafos à parte, vamos ao que interessa.

São 18 contos, traduzidos por ninguém menos que Clarice Lispector. Alguns eu conhecia apenas pelo nome, como O gato preto e Os crimes da rua Morgue; a maioria me era completamente estranha. Não tendo mais que informações genéricas sobre Poe, estava na completa escuridão.

Mas tal como a claridade amarelada de uma vela, as palavras minuciosamente escolhidas me guiaram através de surpreendentes conversas. Pois é exatamente isso que ele faz, conversa. Conta uma história como se estivesse do outro lado de uma mesa de bar, mas com uma elegância ímpar, que muitos diriam não condizer com o teor de suas histórias.
Acho que este trechinho de “O coração denunciador” pode elucidar o que estou dizendo.

“Depois que eu lhes contar toda a história com bastante calma, sei que vão concordar comigo. É verdade! Sou muito nervoso. Mas não sou louco. E meu ouvido sempre foi muito bom. A doença não entorpeceu meus sentidos. Antes, aguçou-os. Eu ouvia todas as coisas: do céu, da terra. Até do inferno.”

Pronto. A essa pequena altura os olhos já não conseguem desgrudar das linhas à frente, ávidos para terminar de “ouvir” a história, e ao fim, descobrir que não concordaria com ele.
Ficar de boca aberta com as linhas de raciocínio de Poe, e seus chocantes finais, por sinal, é uma constante, assim como empregos literários.
A primeira frase, majoritariamente uma afirmação.

“ Amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma.”
“O caso não ficou muito bem-contado na época em que se deu.”
“Todos nós sabemos que os indivíduos dotados de boas qualidades mentais são dotados também de um espírito fascinado pela análise.”

Os parágrafos iniciais, sempre uma explicação do que virá, uma justificativa para o que será contado, como o que transcrevi acima.
As frases curtas, que fortalecem o texto, ao mesmo tempo em que lhe confere grande fluência.
Não há preocupação com a alternância dessas armas.
Usando a realidade apenas como ponto de partida, ele se embrenha no extraordinário para tratar, principalmente, da morte.
Ele explora todas suas facetas. O medo. O respeito. A frieza. E até como desafiá-la e trapaceá-la. Tudo de forma surpreendente.
Bem diferente do que costumo ler, mas sem dúvida, valeu à pena conhecer um pouco desta mente sombria.

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Madame Bovary

De volta aos clássicos.

O título desta vez foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Talvez usando sua experiência como amante de uma mulher casada, e fulminando com seus críticos olhos a sociedade da época, provinciana até na cidade grande, construiu um texto considerado tecnicamente perfeito. Foram cinco anos, escrevendo, lendo e reescrevendo, em busca das palavras perfeitas, das frases perfeitas, até chegar a plenitude da excelência. E conseguiu, é considerado por muitos o pai do romance realista do século XIX.

Quando de sua publicação, diante da temática do livro, causou intenso alvoroço, pro bem e por mal.

Em uma sociedade burguesa cheia de preconceitos e estereótipos, uma mulher adúltera que anda por aí em um balançante fiacre (carruagem no bom português) de cortinas fechadas com um amante, só poderia gerar um escândalo. Minha mente imaginativa consegue até visualizar os olhos arregalados e curiosos dos conservadores franceses que não contentes em ler a obra às escondidas, como bons puritanos, arrastaram Gustave e Emma aos tribunais franceses.

O texto é absurdamente coeso, sem adentrar na questão do enredo, maravilhoso. O quadro psicológico dos personagens é tão profundo que era como se eles estivessem andando pela minha sala. Contudo, por vezes, e peço desculpas antecipadamente aos que acham que alguns textos e autores são intocáveis diante de suas brilhantes mentes, a perfeição pode ser chata.

Ao começar o texto, confesso, insisti na leitura. Queria muito ler o livro e fui firme com minha mente preguiçosa e má acostumada com a modernidade. Os textos cotidianos de hoje são mais diretos, nos viciando com o tal discurso. Gustave se prende com furor às descrições, decorando sua história com ambientes, vestimentas, paisagens; nada escapou à sua caneta. Passado o choque inicial e já envolvida na história, impossível parar até descobrir o fim de Emma Bovary.

E é sobre esta mulher que o livro trata, apesar de começar e terminar através de Charles Bovary, o homem sem graça, com o qual Emma se casa na esperança de sair da medíocre vida que acreditava levar junto ao pai.

Emma é uma típica pequena burguesa, que entorpecida pelos contos de fadas narrados nos romances que lia desde criança, vivia numa espécie de síndrome de bela adormecida, na constante espera pelo príncipe encantado que iria despertá-la de seus pesadelos, que nada mais eram que a vida real, com todos os seus problemas e frustrações.

Nesta busca pela felicidade eterna e pelo amor perfeito, rapidamente se decepcionou com o marido médico, um homem com os dois pés no chão, cuja satisfação estava no trabalho e no lar, no qual a mulher que tanto admirava o esperava. Ela era uma bela mulher, elegante e atraente, mas com “crises de nervos” irritantemente persistentes, fruto da agonia que a possuía, diante de uma vida que à seus olhos deveria ter sido escrita por um romancista e não pelo destino, um triste destino.

Tentando mudar os traçados que a levaram àquela situação, se deixou levar pelas palavras de Rodolphe, estrategicamente pensadas e pronunciadas para seduzi-la, afinal, era um bon vivant conquistador. Mas Emma o viu como um príncipe no cavalo branco, disposto a resgatá-la, a salvá-la. Não tenho tanto certeza de se ela realmente se apaixonou por ele; talvez apenas o enxergasse, assim como o que viviam, através de um véu de ilusões, distorcendo a realidade para que se adaptasse a uma linda e ardente história de amor proibido, lida em algum romance.

Mas a vida é repleta de imperfeições, e por esperar demais do que por natureza não pode ser perfeito, mais uma vez Emma se decepcionou, e novamente, sofreu. Um sofrimento retirado das páginas de um livro, denso, profundo, físico.

Já desgostosa da vida, a amaldiçoando com todos os ossos de seu corpo e remoendo sofrimentos ulteriores apenas para se sentir viva, um reencontro a levou a fazer as pazes com o destino. Léon, um rapaz mais novo que há anos a havia encantado, na mesma proporção que ele se deixou deslumbrar. E desta vez, com uma traição em seu currículo, não pretendia deixar a vida retirar o que achava ser seu por direito: um amor, que hoje, diríamos ser de cinema. Entregou-se de corpo e alma, mas sempre na esperança de que tudo fosse perfeito para sempre, buscando nele, outro príncipe encantado.

Nesta busca incessante pela vida perfeita, Emma pagou um preço alto e se viu, na verdade se colocou, em uma situação limite, um turbilhão no qual se perdeu por completo, arruinando a própria vida e das únicas pessoas que a amavam, seu marido Charles, e a pequena Berthe, sua filha.

A edição que li é da série de bolso da L&PM, com tradução da Ilana Heineberg, e traz no resumo uma frase que acredito merecer uma transcrição de tão simples, mas ao mesmo tempo tão reveladora da história.

“Como Dom Quixote, que leu romances de cavalaria demais e pôs-se a guerrear com moinhos, ela tenta dar vida e paixão à sua existência, escolha que levará a uma sucessão de erros e a uma descida ao inferno.”

E sendo bastante clichê, afirmo, a vida é composta por erros e acertos, são nossas escolhas, boas ou más, que nos constroem; precisamos aprender a conviver com elas, uma coisa que Emma não soube fazer.

Orgulho e Preconceito

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Essas edições de bolso da Saraiva são uma tentação. Ótimos títulos, preços super acessíveis e do tamanho certo; cabem em praticamente qualquer bolsa. A reunião desses elementos só pode resultar em uma coisa: um livro a mais na estante e menos dinheiro no bolso, mas vale a pena.

A leitura da vez foi Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Um romance passado e escrito na Inglaterra do início do século XIX, longe da efervescente Londres da Revolução Industrial, tendo como cenário, o interior, realidade da autora, oriunda da aristocracia rural inglesa.

O enredo trata, obviamente, de orgulho e preconceito, com pitadas de amor e intriga. Gira em torno de Elizabeth Bennet, conhecida na intimidade como Lizzy, definitivamente a heroína do livro;  e é sob o ponto de vista desta que a história se desenrola.

O cotidiano de Elizabeth envolvia essencialmente sua família, composta por sua mãe, Miss Bennet, uma figuraça; o objetivo de sua vida era casar as filhas, não importando como e com quem, desde que este possuísse boa renda; seu pai, Mr. Bennet, que não apoiava muito a atitude da esposa em caçar maridos, ato este que ultrapassava o ridículo, preferia a companhia dos livros; e suas irmãs, das quais se destaca, em toda sua inocência, a mais velha, Jane.

Além dos acima, temos como personagens principais, Mr. Bingley, pelo qual Jane se apaixona, tendo a recíproca sido verdadeira; a irmã deste, Miss Bingley, uma mulher inserida em seu tempo e em todos os orgulhos e preconceitos que este podia introjetar; Mr.Darcy, o orgulho em pessoa, mas que apesar de tudo e todos, principalmente de si mesmo, é despertado pelo interesse em Elizabeth, assim como o desperta; e a tia deste gentleman, Lady Chaterine, intensamente apegada a seu nobre sangue.

Com ironia peculiar e sem se perder em intensas descrições de ambientes, que em alguns autores nos desprende da história, a autora se lança no psicológico dos personagens, seus sentimentos e dúvidas; não apenas expõe, mas critica, questiona os costumes aristocráticos, as regras de etiqueta, os valores e preconceitos que uma sociedade estratificada pode gerar.

Dentre todos os questionamentos, o que mais chamou minha atenção foi sobre o papel da mulher numa sociedade na qual esta era avaliada exclusivamente pelo valor de seu dote e não por seu espírito. Fica claro nos diálogos a crítica direcionada a educação da mulher e a super valorização dos “talentos” fúteis, como bordar e tocar piano. Inclusive, separei um trecho em que Miss Bingley exalta as qualidades que a mulher ideal deve possuir; é perfeito para abordar este tema, e também para deixar um gostinho.

Nenhuma mulher pode ser realmente considerada completa se não se elevar muito acima da média. Uma mulher deve conhecer bem a música, deve saber cantar, desenhar, dançar e falar as línguas modernas a fim de merecer esse qualificativo, e além disso, para mão merecer senão pela metade, é preciso que possua um certo quê em sua maneira de andar, o tom da voz e no modo de exprimir-se.

 Obviamente, este comentário foi seguido por um deboche de Elizabeth, que em toda sua atitude e humor irônico, duvida, e muito, da existência de tal pessoa.

De forma resumida, a história é sobre uma família não muito abastada, na qual a filha mais velha, Jane, se apaixona por um homem de posição social superior, Mr. Bingley, não que isto o afastasse. Entretanto, este se deixa afastar por preconceitos dos que o cercam. Paralelamente, Elizabeth, irmã de Jane, com o olhar mais critico de todas, olhar este que muitas vezes a cega, se vê envolvida, a contra gosto de seus próprios preconceitos, com o amigo do namorado da irmã, Mr. Darcy, que apesar de lutar, com todas as armas que o orgulho de sua posição o provia, contra o sentimento que brotava dentro de si em relação à Elizabeth, termina por aceitar este amor e se declara. A história é repleta de encontros e desencontros, ocasionados por uma cegueira moral que blindava ambos os lados, mas agraciados com um final feliz, tanto para Jane, como, principalmente, para Elizabeth.

Um clássico é um clássico não só pela trama, explicada resumidamente acima, mas sim pela forma como ela é contada. Jane consegue construir diálogos que retratam uma sociedade de época, uma época que já passou, mas ao mesmo tempo, o livro permanece atual. Com algumas adaptações, essa historia poderia estar acontecendo ao nosso lado. Por exemplo, Miss Bingley, que se encaixaria perfeitamente como uma típica burguesinha, preocupada com status social e com o que os outros pensam a seu respeito, se anulando totalmente pra se encaixar; quem não conhece pessoas assim?

Indo além, me atrevo a dizer que os estereótipos apenas mudaram. Hoje, para ser considerada moderna, a mulher tem que trabalhar, cuidar dos filhos, e do marido, dirigir, falar inglês, estudar, sair com as amigas,e acima de tudo, estar sempre linda e feliz, estampando um largo sorriso no rosto. Trocaram-se as amarras em prol de uma liberdade inexistente. Liberdade é opção e não imposição.

Enfim, é impressionante como um romance do século XIX tenha me suscitado tantas questões atuais. Fica a recomendação de leitura, lembrando que existem várias versões dele para a telona, a mais recente de 2005, com Keira Knighttley no papel de Elizabeth.