Noites Brancas

Quando se ouve o nome “Fiódor Dostoivévski”, o que vem à sua mente? Na minha cabeça essa reposta é fácil. Um homem existencialista, politizado, contestador da realidade social da Rússia dos Czares.

Contudo, não me deparei com esse homem ao ler Noites Brancas. Um romance com menos de 100 páginas, que sequer é citado em inúmeras relações de obras do escritor russo. Minha estranheza foi rapidamente solucionada ao ver o ano da obra, 1848. O Dostoivévski, autor de Crime e Castigo, ainda não existia. Era um homem com o coração partido e não o que fora enviado à Sibéria por ter sido considerado subversivo.

O título “Noites Brancas” faz referência as noites da primavera de São Petersburgo, nas quais o sol nunca se põe por completo, deixando uma tênue claridade no ar. Em uma dessas noites, o sonhador sem nome, personagem central da trama, vaga pelas margens do canal quando como num sonho se depara com uma linda e chorosa jovem, com a qual se põe a conversar.

Uma amizade à primeira vista. Íntimas revelações ditas à luz da noite. Ele, um inveterado sonhador, relata com minúcias sua vida solitária, decorrida entre realidades fictícias e paredes atabacadas. Enquanto Nástienhka abre seu coração ao falar da vida passada, literalmente, sob a barra da saia de sua avó e de um repentino amor do passado, ao qual ainda espera.

A cada noite o sonhador caminhava em direção à saída de sua zona de conforto dos sonhos. Admirado. Apaixonado. Mas não se pode moldar a realidade tal como na imaginação, e a desilusão se tornou inevitável.

Entretanto, em todo sofrimento, o sonhador não se deixa abalar por completo. Ao invés de amaldiçoar o amor não correspondido, assim como o objeto desse amor, ele se vê realizado nos parcos momentos de felicidade proporcionados pela companhia da amada Nástienhka.

Um momento de felicidade! Sim! Não será o bastante para preencher uma vida?

Um último parágrafo que me fez refletir. Um único momento de felicidade realmente faria a vida valer a pena? Filosoficamente? Pode ser que sim. Mas e na vida real? No dia a dia?

Eu não me iludo com a felicidade prozac. As pessoas não são felizes o tempo todo. A vida não é assim e nem é para ser. É feita de tristezas, lágrimas, felicidade e sorrisos. É o que nos torna o que somos. Mas não seria pouco se contentar com UM momento?

Não tenho a resposta.

Deixando meus devaneios de lado, adorei conhecer o romântico e lúdico Dostoivévski. Recomendo!

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