Madame Bovary

De volta aos clássicos.

O título desta vez foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Talvez usando sua experiência como amante de uma mulher casada, e fulminando com seus críticos olhos a sociedade da época, provinciana até na cidade grande, construiu um texto considerado tecnicamente perfeito. Foram cinco anos, escrevendo, lendo e reescrevendo, em busca das palavras perfeitas, das frases perfeitas, até chegar a plenitude da excelência. E conseguiu, é considerado por muitos o pai do romance realista do século XIX.

Quando de sua publicação, diante da temática do livro, causou intenso alvoroço, pro bem e por mal.

Em uma sociedade burguesa cheia de preconceitos e estereótipos, uma mulher adúltera que anda por aí em um balançante fiacre (carruagem no bom português) de cortinas fechadas com um amante, só poderia gerar um escândalo. Minha mente imaginativa consegue até visualizar os olhos arregalados e curiosos dos conservadores franceses que não contentes em ler a obra às escondidas, como bons puritanos, arrastaram Gustave e Emma aos tribunais franceses.

O texto é absurdamente coeso, sem adentrar na questão do enredo, maravilhoso. O quadro psicológico dos personagens é tão profundo que era como se eles estivessem andando pela minha sala. Contudo, por vezes, e peço desculpas antecipadamente aos que acham que alguns textos e autores são intocáveis diante de suas brilhantes mentes, a perfeição pode ser chata.

Ao começar o texto, confesso, insisti na leitura. Queria muito ler o livro e fui firme com minha mente preguiçosa e má acostumada com a modernidade. Os textos cotidianos de hoje são mais diretos, nos viciando com o tal discurso. Gustave se prende com furor às descrições, decorando sua história com ambientes, vestimentas, paisagens; nada escapou à sua caneta. Passado o choque inicial e já envolvida na história, impossível parar até descobrir o fim de Emma Bovary.

E é sobre esta mulher que o livro trata, apesar de começar e terminar através de Charles Bovary, o homem sem graça, com o qual Emma se casa na esperança de sair da medíocre vida que acreditava levar junto ao pai.

Emma é uma típica pequena burguesa, que entorpecida pelos contos de fadas narrados nos romances que lia desde criança, vivia numa espécie de síndrome de bela adormecida, na constante espera pelo príncipe encantado que iria despertá-la de seus pesadelos, que nada mais eram que a vida real, com todos os seus problemas e frustrações.

Nesta busca pela felicidade eterna e pelo amor perfeito, rapidamente se decepcionou com o marido médico, um homem com os dois pés no chão, cuja satisfação estava no trabalho e no lar, no qual a mulher que tanto admirava o esperava. Ela era uma bela mulher, elegante e atraente, mas com “crises de nervos” irritantemente persistentes, fruto da agonia que a possuía, diante de uma vida que à seus olhos deveria ter sido escrita por um romancista e não pelo destino, um triste destino.

Tentando mudar os traçados que a levaram àquela situação, se deixou levar pelas palavras de Rodolphe, estrategicamente pensadas e pronunciadas para seduzi-la, afinal, era um bon vivant conquistador. Mas Emma o viu como um príncipe no cavalo branco, disposto a resgatá-la, a salvá-la. Não tenho tanto certeza de se ela realmente se apaixonou por ele; talvez apenas o enxergasse, assim como o que viviam, através de um véu de ilusões, distorcendo a realidade para que se adaptasse a uma linda e ardente história de amor proibido, lida em algum romance.

Mas a vida é repleta de imperfeições, e por esperar demais do que por natureza não pode ser perfeito, mais uma vez Emma se decepcionou, e novamente, sofreu. Um sofrimento retirado das páginas de um livro, denso, profundo, físico.

Já desgostosa da vida, a amaldiçoando com todos os ossos de seu corpo e remoendo sofrimentos ulteriores apenas para se sentir viva, um reencontro a levou a fazer as pazes com o destino. Léon, um rapaz mais novo que há anos a havia encantado, na mesma proporção que ele se deixou deslumbrar. E desta vez, com uma traição em seu currículo, não pretendia deixar a vida retirar o que achava ser seu por direito: um amor, que hoje, diríamos ser de cinema. Entregou-se de corpo e alma, mas sempre na esperança de que tudo fosse perfeito para sempre, buscando nele, outro príncipe encantado.

Nesta busca incessante pela vida perfeita, Emma pagou um preço alto e se viu, na verdade se colocou, em uma situação limite, um turbilhão no qual se perdeu por completo, arruinando a própria vida e das únicas pessoas que a amavam, seu marido Charles, e a pequena Berthe, sua filha.

A edição que li é da série de bolso da L&PM, com tradução da Ilana Heineberg, e traz no resumo uma frase que acredito merecer uma transcrição de tão simples, mas ao mesmo tempo tão reveladora da história.

“Como Dom Quixote, que leu romances de cavalaria demais e pôs-se a guerrear com moinhos, ela tenta dar vida e paixão à sua existência, escolha que levará a uma sucessão de erros e a uma descida ao inferno.”

E sendo bastante clichê, afirmo, a vida é composta por erros e acertos, são nossas escolhas, boas ou más, que nos constroem; precisamos aprender a conviver com elas, uma coisa que Emma não soube fazer.

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2 comentários sobre “Madame Bovary

  1. Sua descrição é rica de detalhes. Belíssima resenha de um clássico, eu diria… sufocante! Ah essas histéricas freudianas. Malditas as histéricas do XIX, benditas as revolucionárias da 1a metade do XX e odiosas as ensandecidas da 2ª metade! ;oP

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