Orgulho e Preconceito

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Essas edições de bolso da Saraiva são uma tentação. Ótimos títulos, preços super acessíveis e do tamanho certo; cabem em praticamente qualquer bolsa. A reunião desses elementos só pode resultar em uma coisa: um livro a mais na estante e menos dinheiro no bolso, mas vale a pena.

A leitura da vez foi Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Um romance passado e escrito na Inglaterra do início do século XIX, longe da efervescente Londres da Revolução Industrial, tendo como cenário, o interior, realidade da autora, oriunda da aristocracia rural inglesa.

O enredo trata, obviamente, de orgulho e preconceito, com pitadas de amor e intriga. Gira em torno de Elizabeth Bennet, conhecida na intimidade como Lizzy, definitivamente a heroína do livro;  e é sob o ponto de vista desta que a história se desenrola.

O cotidiano de Elizabeth envolvia essencialmente sua família, composta por sua mãe, Miss Bennet, uma figuraça; o objetivo de sua vida era casar as filhas, não importando como e com quem, desde que este possuísse boa renda; seu pai, Mr. Bennet, que não apoiava muito a atitude da esposa em caçar maridos, ato este que ultrapassava o ridículo, preferia a companhia dos livros; e suas irmãs, das quais se destaca, em toda sua inocência, a mais velha, Jane.

Além dos acima, temos como personagens principais, Mr. Bingley, pelo qual Jane se apaixona, tendo a recíproca sido verdadeira; a irmã deste, Miss Bingley, uma mulher inserida em seu tempo e em todos os orgulhos e preconceitos que este podia introjetar; Mr.Darcy, o orgulho em pessoa, mas que apesar de tudo e todos, principalmente de si mesmo, é despertado pelo interesse em Elizabeth, assim como o desperta; e a tia deste gentleman, Lady Chaterine, intensamente apegada a seu nobre sangue.

Com ironia peculiar e sem se perder em intensas descrições de ambientes, que em alguns autores nos desprende da história, a autora se lança no psicológico dos personagens, seus sentimentos e dúvidas; não apenas expõe, mas critica, questiona os costumes aristocráticos, as regras de etiqueta, os valores e preconceitos que uma sociedade estratificada pode gerar.

Dentre todos os questionamentos, o que mais chamou minha atenção foi sobre o papel da mulher numa sociedade na qual esta era avaliada exclusivamente pelo valor de seu dote e não por seu espírito. Fica claro nos diálogos a crítica direcionada a educação da mulher e a super valorização dos “talentos” fúteis, como bordar e tocar piano. Inclusive, separei um trecho em que Miss Bingley exalta as qualidades que a mulher ideal deve possuir; é perfeito para abordar este tema, e também para deixar um gostinho.

Nenhuma mulher pode ser realmente considerada completa se não se elevar muito acima da média. Uma mulher deve conhecer bem a música, deve saber cantar, desenhar, dançar e falar as línguas modernas a fim de merecer esse qualificativo, e além disso, para mão merecer senão pela metade, é preciso que possua um certo quê em sua maneira de andar, o tom da voz e no modo de exprimir-se.

 Obviamente, este comentário foi seguido por um deboche de Elizabeth, que em toda sua atitude e humor irônico, duvida, e muito, da existência de tal pessoa.

De forma resumida, a história é sobre uma família não muito abastada, na qual a filha mais velha, Jane, se apaixona por um homem de posição social superior, Mr. Bingley, não que isto o afastasse. Entretanto, este se deixa afastar por preconceitos dos que o cercam. Paralelamente, Elizabeth, irmã de Jane, com o olhar mais critico de todas, olhar este que muitas vezes a cega, se vê envolvida, a contra gosto de seus próprios preconceitos, com o amigo do namorado da irmã, Mr. Darcy, que apesar de lutar, com todas as armas que o orgulho de sua posição o provia, contra o sentimento que brotava dentro de si em relação à Elizabeth, termina por aceitar este amor e se declara. A história é repleta de encontros e desencontros, ocasionados por uma cegueira moral que blindava ambos os lados, mas agraciados com um final feliz, tanto para Jane, como, principalmente, para Elizabeth.

Um clássico é um clássico não só pela trama, explicada resumidamente acima, mas sim pela forma como ela é contada. Jane consegue construir diálogos que retratam uma sociedade de época, uma época que já passou, mas ao mesmo tempo, o livro permanece atual. Com algumas adaptações, essa historia poderia estar acontecendo ao nosso lado. Por exemplo, Miss Bingley, que se encaixaria perfeitamente como uma típica burguesinha, preocupada com status social e com o que os outros pensam a seu respeito, se anulando totalmente pra se encaixar; quem não conhece pessoas assim?

Indo além, me atrevo a dizer que os estereótipos apenas mudaram. Hoje, para ser considerada moderna, a mulher tem que trabalhar, cuidar dos filhos, e do marido, dirigir, falar inglês, estudar, sair com as amigas,e acima de tudo, estar sempre linda e feliz, estampando um largo sorriso no rosto. Trocaram-se as amarras em prol de uma liberdade inexistente. Liberdade é opção e não imposição.

Enfim, é impressionante como um romance do século XIX tenha me suscitado tantas questões atuais. Fica a recomendação de leitura, lembrando que existem várias versões dele para a telona, a mais recente de 2005, com Keira Knighttley no papel de Elizabeth.

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